Um país perigoso para lutar por direitos

Marielle não foi a primeira vitima da violência politica neste país, sua morte trás um fato ainda mais assustador, na verdade Marielle é mais uma na longa lista de assassinatos e execuções ao redor do país e que certamente podem ser enquadrados em uma categoria de crimes que entre 1964 e 1985 era de exclusividade do estado brasileiro, os assassinatos políticos.

Se você acha que começou com Marielle está enganado! Ao longo dos anos diversos militantes em todo o país foram assassinados por acreditarem em um mundo mais justo, apenas no primeiro semestre de 2017 mais de 58 militantes foram assassinados, ou por irem contra interesses da iniciativa privada ou de “representantes do estado”.

Um relatório elaborado pelo Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos (CBDDH), que reúne 24 organizações e movimentos sociais que lutam por diversas bandeiras, desde o acesso à terra aos direitos da mulher aponta que em 2016, 66 militantes foram assassinados em todo o país, os números são assustadores, uma vez que em 2015 no mundo todo 156 assassinatos são registrados, ou seja, em comparação com 2015, o Brasil foi responsável por quase um terço dos crimes políticos em todo o planeta!

Sempre ocorreu

A ditadura acabou, mas a perseguição nunca terminou, apenas 3 anos após o fim da ditadura, em 1988, Chico Mendes um seringueiro, sindicalista, ativista político e ambientalista brasileiro que lutou a favor dos seringueiros da Bacia Amazônica, cuja subsistência dependia da preservação da floresta e das seringueiras nativas, foi assassinado com tiros de escopeta no peito na porta dos fundos de sua casa, quando saía para tomar banho.

Chico Mentes incomodou a burguesia local ainda mais quando denuciou que projetos financiados por bancos estrangeiros estavam levando à devastação da floresta e à expulsão dos seringueiros. Dois meses depois, levou estas denúncias ao Senado dos Estados Unidos e à reunião de um dos bancos financiadores do projeto, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Os financiamentos a tais projetos acabaram sendo suspensos e Chico Mendes foi acusado por fazendeiros e políticos locais de “prejudicar o progresso”.

Massacres e violência

Nos anos de 1995 e 1996 quase 30 militantes camponeses sem-terra foram executados por agentes de segurança em episódios que ficaram conhecidos como os massacres de Carajá e Corumbiara.

No mês seguinte ao massacre de Carajás, o fazendeiro Ricardo Marcondes de Oliveira, de 30 anos, depôs, acusando o dono da fazenda Macaxeira pela matança. Ele afirma que o fazendeiro pagou propina para que a Polícia Militar matasse os líderes dos sem-terra. Ele mesmo teria sido procurado para contribuir na coleta. O dinheiro seria entregue ao coronel Mário Pantoja, comandante da PM de Marabá e responsável pelo massacre.

Já o massacre de Corumbiara, contou com  participação de pistoleiros armados, recrutados nas fazendas da região, além de soldados da Polícia Militar com os rostos cobertos, agricultores da região afirmam que mais de 100 pessoas foram executadas, embora o número oficial seja 16 mortos e 7 desaparecidos, testemunhas afirmam que muitos outros mortos foram enterrados ou queimados, o bispo de Guajará Mirim, dom Geraldo Verdier, recolheu amostras de ossos calcinados em fogueiras do acampamento e enviou a Faculté de Médicine Paris-Oeste, que confirmou a cremação de corpos humanos no acampamento da fazenda de Santa Elina.

No dia 12 de fevereiro de 2005 a Irmã Dorothy Stang, uma religiosa defensora dos direitos camponeses foi assassinada, com seis tiros, um na cabeça e cinco ao redor do corpo, aos 73 anos de idade.

Ninguém está seguro

Apesar de não ocorrerem mais massacres, as perseguições e mortes aumentaram de forma sistemática, se antes os executores, tinham certa tolerância aguardavam um tempo para agir. Agora não demoram mais de alguns dias ou horas para que um militante seja executada, como foi o caso da vereadora Marielle, executada 3 dias após denunciar abusos policiais.

Em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin transformou a policia paulista em uma verdadeira GESTAPO (policia politica da Alemanha nazista), que pune com rigor militantes de direitos sociais e que investiga e julga com total morosidade crimes de ódio e ações de propaganda neonazista na capital.

Lentamente o país vem se tornando uma república extremamente perigosa para se ter senso crítico com o aval do estado e seus agentes que são cúmplices de forma indireta ou direta.

A CPI das milícias presidida por Marcelo Freixo (PSOL-RJ) mostrou que facções criminosas formadas por agentes de segurança pública (milícias) já haviam tomado conta de várias esferas do governo carioca e trazendo novamente o voto de cabresto, uma vez que estes grupos dominam áreas no estado do Rio e permitem que apenas os candidatos alinhados com as facções possam fazer campanha nas regiões dominadas por eles.

Aos poucos o cerco vai se fechando e país vai se tornando um lugar perigoso para pensar diferente. Até quando será seguro ter opinião própria no Brasil? Qual será o próximo episódio dessa escalada de terror contra militantes de causas sociais?

Leia mais: Por que a morte de Marielle tem tanta visibilidade entre tantas outras?

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